Hoje estou em Araguaína acompanhando a recuperação da minha colega e amiga professora Jacilene Bezerra, coordenadora do Instituto de Ensino Superior Professor Gamaliel, ligada à Universidade Gama Filho. Ela se encontra no Hospital Regional do Tocantins e deverá permanecer por alguns dias, talvés semanas. Seu estado clínico é estável, felizmente só sofreu um traumatismo facial recuperável com uma cirúrgia que deverá fazer ainda hoje.
Pra você entender melhorViajávamos de Imperatriz com destino a Santa Maria das Barreiras no Pará, onde eu ministraria uma disciplina naquele Pólo pelo Instituto, quando por volta das treze horas, sofremos um grave acidente.
O acidenteEu dirigia o Fiat Uno da professora pela esburacada BR 153, quando num trecho localizado aproximadamente a 10 km de Araguaína, um dos buracos desestabilizou o caro, eu tentei segurar o volante, o veículo rodopiou e em meios a gritos e desespero, saímos da pista e caímos num abismo, segundo a PF, de 4 metros de altura. Depois de alçar voo, o carro bateu num barranco de pedras e capotou muito, não sei quanto, mas pelo estado do carro, que deu perda total, acredito que umas três vezes.
O desesperoQuando perdi o controle da direção e vi o carro saltando o meio fio, confesso que fechei os olhos e esperei o pior. Nessa hora, tudo se passou em minha mente, lembrei meu filho, esposa, pai, família. Esperei a perda da consciência e imaginei desvendar o mistério da morte. De repente tudo silenciou, abri os olhos, olhei pra o lado, Jacilene agonizava sangrando muito. o carro estava deitado com meu lado pra baixo, a porta do passageiro,pra cima, travou com o amassado, não havia saída. Não sentia na hora as dores que sinto hoje, só pensava em como salvá-la. Por sorte o motorista que vinha logo atrás parou, e olhava de cima da BR, em despero e prantos eu gritei por seu socorro. Com dificuldade ele conseguiu descer o barranco e, como nem ele conseguiu explicar conseguiu sozinho remover o carro, o que possibilitou abrir a porta do meu lado. Ela estava com as pernas presas às ferragens,com dificuldade consegui livrá-las. Outras pessoas chegaram e a levaram até o carro do moço que nos socorreu.
AtendimentoAinda estou surpreso com o atendimento do Hospital Regional do Tocantins, aqui em Araguaína, algo comparável á UNIMED de Imperatriz em estrutura e limpeza e melhor ainda em atendimento. Nada comparável ao que temos em termos de saúde pública no Maranhão. Precisei ver e experimentar pra acreditar no que já me diziam.
A professora Jacilene foi atendida por um médico especializado em face, que constatou a quebra do maxilar e a mandíbula,e a encaminhou pra uma cirurgia que deverá ser feita hoje. Ainda ontem veio também um neurologista que encaminhou uma tomografia, feita ainda ontem, que descartou trauma craniano.
Como fiqueiFisicamente perfeito, apenas com escoriações leves. Um exame de Raio X,feito ainda ontem, não constatou alterações. Nesse momento meu corpo dói todo, mas é normal diante das pancadas. Psicologicamente, ainda abalado, as imagens me vêm a todo instante, e sei que me acompanharão por toda vida.
DeusEsse é o meu terceiro grave acidente envolvendo carros e moto. Ontem chorando refleti por que ainda vivo, por que ainda verei minha família de novo. Na hora lembrei das cinco vias da existência de Deus de Tomás de Aquino, refleti sobre o reconhecimento divino por Immanuel Kant, lembrei do primeiro motor de Aristóteles, do existencialismo cristão de Soren Kierkeggar, lembrei Leonardo Boff e tantos outros racionalistas que refletiram sobre o tema Deus. Porém o que pesou mais foi a percepção de minha ínfima fragilidade humana, a certeza de que a vida não me pertence. Caramba, por que a única parte do carro que não amassou totalmente foi a que eu estava, como eu não me feri com tantos ferros soltos,com tantos vidros quebrados ao meu redor?! A vida não nos pertence.Digo isso racionalmente e agradeço a Deus por poder escrever o que vivi.